MICHAEL JACKSON - SERÁ QUE A ARTE MORREU ?
26 de Junho de 2009A persistência da memória, 1931, Salvador Dali
É - justamente no momento no qual eu me proponho novamente a escrever neste blog - o Michael Jackson muda de plano. Obviamente, assim como foi em vida, neste outro momento será um grande espetáculo. Não concondo com a denominação de tragédia - acho que há outras maiores, como a quantidade de crianças morrendo de fome, o enorme número de africanos contraindo AIDS todos os dias, e um sem número de outras tragédias anônimas, que por isso mesmo passam desapercebidas.
Independentemente disso ou de qualquer argumento que o valha, é inegável o talento do artista Michael Jackson. Se partimos do pressuposto que o artista é aquele indivíduo que representa a realidade de acordo com a sua ótica, poderíamos afirmar que Michael Jackson optou, em dado momento de sua vida, por se isolar, não na realidade que ele buscava representar, mas na ilusão da sua própria representação.
Artista que se beneficiou ao extremo dos recursos midiáticos, também fez bom uso da criação artística de outros. Em dado momento foi (ou ainda é) dono de todos (ou parte pelo menos) dos direitos autorais das músicas dos Beatles. Diferente destes, não se tem notícia de um Michael Jackson compositor, mas sim de alguém visionário, que soube aproveitar as oportunidades e se transformou mesmo neste veículo artístico.
Nesse meio tempo, aparece a sua parcela de criação artística, colocando a sua característica pessoal em obras que muitas vezes não haviam saído da sua representação da realidade. Aí reafirmo a possibilidade de Michael ter optado por ter se refugiado na não realidade, morando inclusive em um rancho chamado de “Neverland” - ou em tradução livre, “Terra do Nunca”.
Nunca se viu artista como Michael Jackson, da mesma maneira que nunca havia se visto artista como Elvis Presley. Nunca havia se visto nada comparado aos Beatles enquanto fenômeno. Mas quando pensamos no que a tecnologia pode fazer em termos de representar ela mesma a realidade, enão percebemos que pessoas como Michael Jackson realmente são cada vez mais raras. Quem é mais nocivo para a sociedade - Marilyn Manson ou Britney Spears ?
Tomara, portanto, que a arte não se transforme em representação programada, e que os artistas passem a ser somente os representantes dessa representação que não lhes pertence. Porque se isso acontecer, é melhor ficar em casa.
Ainda tenho esperanças de que a arte volte a ser o que era. A passagem de Michael, artista de impressionante qualidade, serve para muitas reflexões, inclusive esta - será que a arte morreu ?
André Mols
